Vortex

Vortex

2015 – 2017

 

O filme tem como premissa inicial a problematização desencadeada pelo teórico e crítico de cinema P. Adams Sitney (1974) em torno da temática do (que por ele é definido como) Filme Estrutural, tomando como principais objectos de análise os filmes de Michael Snow. Procuramos, portanto, explorar o filme enquanto filme, noção que desdobra uma primazia pelo filme enquanto um medium de trabalho em si próprio. Para tal, pretendemos desvelar e dar visibilidade àqueles que são os processos e elementos estruturais, formais e materiais intrínsecos ao meio audiovisual — desde as suas qualidades de cor e luminosidade, de durabilidade e ritmo da filmagem e dos planos, do respectivo carácter mecânico da máquina de filmar, e da evidência da montagem enquanto meio de construção espácio-temporal. Tais componentes, anulados e escondidos pelo cinema dominante, opõem-se e rejeitam os métodos ilusionistas da produção audiovisual tradicionalmente narrativa, a qual recorre exclusivamente aos respectivos processos de continuidade e invisibilidade da montagem enquanto instrumentos e veículos de representação de uma certa realidade, de histórias, de uma preferência pela presença e performance humana, de uma dependência nas (inter)acções entre personagens:

 

Structural/Materialist film attempts to be non-illusionist. The process of the film’s making deals with devices that result in demystification or attempted demystification of the film process. But by ‘deals with’ I do not mean ‘represents’. In other words, such films do not document various film procedures, which would place them in the same category as films which transparently document a narrative, a set of actions, etc. (…)

The dialectic of the film is established in that space of tension between materialist flatness, grain, light, movement, and the supposed reality that is represented. Consequently a continual attempt to destroy the illusion is necessary. In Structural/Materialist film, the in/film (not in/frame) and film/viewer material relations, and the relations of the film’s structure, are primary to any representational content. The structuring aspects and the attempt to decipher the structure and anticipate/recorrect it, to clarify and analyse the production-process of the specific image at any specific moment. are the root concern of Structural/Materialist film. (GIDAL, 1978, p. 1)

 

A segunda premissa principal incide sobre o conceito de mise en abyme tal como é analisado por Lucien Dallenbach (1991), considerando a origem do termo no romancista André Gide (1970). Definimos assim a função do conceito para figurar as circunstâncias sine qua non de uma determinada obra de arte ao desvelar ou colocar em evidência a condição dos elementos inerentes ao seu processo de construção, como que reflectindo-a sobre si mesma, tornando o acto (processo) de criação o próprio motivo (sujeito) da criação. Por conseguinte, a mise en abyme captura-nos inevitavelmente nesta espécie de armadilha que é desencadeada pelo confronto recíproco entre a obra e os meios que a compõem enquanto tal — estes que, no fundo, são, ao mesmo tempo, a sua respectiva imagem especular: daí a queda no abismo. Para o efeito, pretendemos prender o observador no universo de Alice ao evocar um espaço claustrofóbico e repetitivo que se vai abrindo/fechando num vórtice infernal, agoniante e vertiginoso de ecrãs dentro de ecrãs, espelhos dentro de espelhos, quadros dentro de quadros, fotogramas dentro de fotogramas — e portanto filme dentro do filme: é a clausura pura no mundo imagem, é a Descida ao Maelstrom:

 

«Ninguém saberá nunca o que eu senti nesse momento. Tremi dos pés à cabeça como se tivesse o mais violento dos ataques de febre. Bem sabia eu o que êle queria dizer com aquela palavra, bem sabia eu que êle queria que eu percebesse. Com o vento que tínhamos agora sôbre nós, íamos ter ao turbilhão do Ström e nada nos poderia salvar!

«Bem vê o senhor: ao passarmos o canal do Ström, íamos sempre muito mais acima do redemoínho, mesmo com o tempo mais seguro e depois tínhamos que esperar com todo o cuidado pela calma; mas agora íamos mesmo sôbre o redemoínho e com um furacão daquela ordem! (…)

«Estávamos agora na faixa de ressaca que existe sempre à volta do turbilhão; e claro está que pensei no momento seguinte mergulharíamos no abismo, cujo fundo mal podíamos ver por causa da extraordinária velocidade com que eramos transportados. (…)

«Ao sentir a volta vertiginosa da descida, instintivamente me prendi com mais fôrça ao barril e cerrei os olhos. Durante alguns segundos não ousei abri-los, porque esperava uma destruição imediata e admirava-me de já não estar na água, no estertor da agonia. (…) (POE, sem data, p. 17, 19, 21)

 

Referências:

DALLENBACH, Lucien (1991) El Relato Especular. Madrid: Visor. Tradução de Ramón Buenaventura. ISBN: 84-7774-708-3

GIDAL, Peter (1978) Structural Film Anthology. Londres: British Film Institute. ISBN 0-85170-0535.

GIDE, André (1970) Journal. Volume 1: 1889-1939. Paris: Gallimard. Collection Bibliotèque de la Pléiade.

POE, Edgar Allan (sem data) A Descida ao Maelstrom. Lisboa: Agostinho da Silva.

SITNEY, P. Adams (1974) Visionary Film: The American Avant-Garde. Nova Iorque: Oxford University Press.

Website: http://cargocollective.com/alexandrealagoa

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